sábado, 24 de junho de 2017

O Duplo (The Double, 2015).

Mais um desses filmes que não me deixam dormir... Sensacional!


Ele me lembrou "Clube da Luta" (1999), "Brazil - O Filme" (1985), "Cisne Negro" (2010), "Metropolis" (1927), "O Homem Duplicado" (2013)... Mas aí nós lembramos que este filme é baseado numa obra homônima do escritor, filósofo e jornalista russo, Fiódor Dostoiévki de 1821, seria ele a verdadeira inspiração para estes outros clássicos (tanto da literatura quanto do cinema)? Há grandes chances.


Tímido, solitário, rejeitado pela amada, Hannah (Mia Wasikowska), Simon (Jesse Eisenberg) tem um choque ao conhecer seu novo colega de trabalho, de nome James. Fisicamente idênticos, os dois são opostos em termos de personalidade. Com uma fotografia escura, pouco iluminada e em tons de sépia, o filme se torna claustrofóbico até incômodo meio ao comportamento passivo do protagonista, e eis que surge o seu oposto, que inicialmente parece ser um aliado que vai ajudá-lo com a sua introspecção, só que não! A medida que vamos avançando com a trama, os "duplos", vão conflitando de maneira mais inesperada a ponto de sentirmos raiva de um e pena do outro. Mas o que se passa? A grande questão é, quem é este duplo e com que propósito ele apareceu? E estas respostas são adquiridas de maneiras diferentes para cada espectador, já que neste longa não temos a resposta exata, e seu final apesar de ser claro para algumas pessoas, ele pode sim, ser interpretado e argumentado de outra maneira. Não chega a ser um final aberto à lá "A Origem" (2010), mas cabem outras interpretações. 


Minha primeira observação é que o filme não define em que época se passa, então não sabemos se no passado ou num futuro distópico, suas cores, como eu já disse antes, em tom de sépia, nos remete à algo retrô, noir, steampunk... carrega uma atmosfera pesada, o humor negro está presente e dá até para se divertir com tanta estranheza contida nos elementos que envolvem esta narrativa que foge dos padrões. O design de produção é outro ponto interessante, luminárias, papéis de parede, espelhos, televisões, fazem parte de cenários minimalistas, há muitos espaços vazios, e uma iluminação que quase sempre está na cabeça dos personagens. A iluminação mais intrigante que já pude perceber em uma produção, pois ela quer te dizer alguma coisa sempre, seja ela de cima para baixo ou de baixo para cima. E algumas vezes eu me perguntava: "De onde vem esta iluminação se a luz vem de lá...???...". Ah, e também há muitos, botões! 


Definitivamente não é um filme para quem só curte blockbusters, este filme vai fundo na psique e bota o espectador para refletir. Será que todo mundo tem o seu duplo? E mais ainda, mostra uma forma peculiar de apresentar uma história. O diretor Richard Ayoade, acerta a mão em enquadramentos assimétrico a fim de destacar a diferença entre os duplos, e voltando as luminárias e iluminação, vemos em algumas cenas a assimetria entre luzes e cores, o contraste entre o claro e o escuro nos ambientes em relação aos personagens. Enquadramentos precisos que nos mostram exatamente o que o diretor quer contar, mas que muitas vezes parece "desenquadrar", causando ainda mais estranheza ao espectador. E tem a trilha sonora, parte importante da trama com canções em japonês e um violino que influência diretamente nos nossos sentidos. É uma delícia apreciar!


Eu recomendo este longa para quem curte filmes que fazem "bagunça no cérebro", e que curtem filmes como os que eu citei lá no início do texto. Um filme inteligente, ousado, provocativo e que não pode passar despercebido.